segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A Aldeia de São José.

Desenho de autoria de Thomas Ender, representando a Igreja Matriz de São José em 1817.
FONTE: Modernidade e Urbanismo Sanitário. São José dos Campos; Ana Maria e Luiz Laerte.

            Com o fracasso do sistema das Capitanias Hereditárias, a Coroa Portuguesa resolve assumir diretamente a administração colonial do Brasil, com a criação do Governo-Geral em 7 de janeiro de 1549, com a nomeação do fidalgo Tomé de Sousa como Governador-Geral. Partindo de Lisboa em 1º de fevereiro do mesmo ano, a frota que seguia para o Brasil trazia todo um aparato político-administrativo a ser implantado na então colônia lusa na América. Composta por três naus, duas caravelas, além de um bergantim, a referida frota trouxe para os trópicos mais de mil passageiros dentre os quais, 400 degredados, 300 colonos, 200 soldados e 120 burocratas e funcionários públicos. Compunha também o corpo administrativo colonial um Provedor-Mor, um Ouvidor-Geral e um Capitão-Mor, cuja obrigação era a de auxiliar Tomé de Sousa a estabelecer a lei e a ordem na colônia. No dia 29 de março de 1549, os viajantes atracam na baía de Todos os Santos, onde o Governador-Geral dá início à fundação da primeira capital do Brasil, Salvador. Integrava também a comitiva de Tomé de Sousa, os primeiros padres da Companhia de Jesus, destacando-se Manuel da Nóbrega. Nessa viagem veio ainda as primeiras cabeças de gado bovino, trazidas das Ilhas do Cabo Verde. Tomé de Sousa permanece no cargo até julho de 1553, quando é substituído por Duarte da Costa, o qual é por sua vez, substituído em fins de 1557 por Mem de Sá. Na viagem que trouxe Duarte da Costa, além de funcionários, soldados, etc, vieram também mais jesuítas, entre eles José de Anchieta, que juntamente com o Padre Manoel da Nóbrega se tornariam líderes jesuítas no Brasil, na segunda metade do século XVI.
            Durante mais de dois séculos (1549-1759), os padres da Companhia de Jesus exerceram um papel decisivo, ao se revelaram uma força ativa político-religioso, na conquista e “civilização” do Brasil. Mesmo com atritos com os colonos e a administração colonial devido ás ações de combate à escravização dos índios, os jesuítas vão espalhando-se pelo interior da colônia, fundando aldeamentos religiosos ou as missões, onde os silvícolas eram reduzidos de acordo com as normas e costumes europeus. A Companhia de Jesus também era possuidora de diversas propriedades entre engenhos, fazendas agrícolas ou de criação bovina, onde os índios aldeados eram empregados nas tarefas diárias. Todavia, o projeto de catequização pôsto em prática resultou em tragédia para os indígenas, pois facilitava a sua captura pelo bandeirismo de preagem, uma vez que era retirado dos aborígines todo o impeto de resistência física, devido à sua redução. Segundo Eduardo Bueno, os jesuítas “se empenharam em submeter os índios aos rigores do trabalho metódico, aos horários rijos, ao latim e à monogamia. Combateram o canibalismo, a poligamia e o nomadismo e acabaram responsáveis pela extinção de várias tribos”. Porém, graças à atuação evangélica, a gramática e o idioma tupi foram preservados. Levando adiante o projeto colonial lusitano, apoiado pela igreja, os padres jesuítas Manoel da Nóbrega e José da Anchieta fundam a Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga em 1554, na realidade um agrupamento de índios Guaianases, liderados por Tibiriçá e João Ramalho, sob administração jesuíta. Com o objetivo de expandir sua área de influência, tal como ocorrera na América espanhola, com a catequização de índios “selvagens”, a Companhia de Jesus estabelece uma fazenda de gado bovino no Vale do Paraíba paulista, ainda no século XVI. A referida fazenda, na realidade era propriedade do Colégio Jesuíta de São Paulo, o qual conforme afirmado, administrava a Vila do Planalto, e sua instalação situava-se próximo ao Rio Comprido, local e córrego do mesmo nome atualmente localizado entre as cidades de São José dos Campos e Jacareí. Segundo a análise de Shirley Gomes da Silva, Solange Vieira, Valeria Zanetti, Nara Rúbia Martins e Diovane Ribeiro, parece ser consenso “que as fazendas de gado eram um tipo de propriedade privada dos próprios jesuítas com o intuito de autosustentar suas missões (...) há indícios de que estes núcleos agregavam também a função de gerar renda para a Companhia de Jesus nesse caso para os próprios Colégios a que estavam atrelados”. Sendo assim, as fazendas jesuíticas ocultavam muitas riquezas auferidas graças ao braço indígena, o que revoltava os colonos, proibidos de escravizar os autóctones.
            Além da fazenda do Rio comprido, onde era explorado trabalho indígena, a Companhia de Jesus controlava também os aldeamentos de Carapicuíba, M’Boy, Itaquaquecetuba e Itapecerica. O controle do braço servil dos indígenas fez eclodir um antagonismo violento entre padres e colonos, culminando na expulsão dos jesuítas da Capitania de São Vicente em 1640 e o confisco de suas propriedades pela Coroa portuguesa. Ao mesmo tempo, os aldeamentos com suas fazendas foram transferidos para o poder público com o nome de “Aldeias Reais”. Em 1653, a expulsão é revogada e os inacianos retornam à Capitania de São Vicente, sendo-lhe restituídos os bens confiscados. Administrava a fazenda e aldeia do Rio Comprido, denominado “Água Comprida” na época colonial, segundo Altino Bondesan, o padre Manoel de Leão que em, 1680 transfere a aldeia para um platô defronte a um pântano, cuja formação geográfica lembra uma concha. Tal local deu origem à atual cidade de São José dos Campos, cujo marco, zero onde se localiza a igreja Matriz, circunda o Banhado. Com a mudança, o aldeamento passou a denominar-se Aldeia Nova, ao passo que o local do Rio Comprido ficou conhecido com Aldeia Velha. Outros nomes identificariam o local, como Nossa Senhora do Desterro; Residência de Paraíba do Sul em 1692. Assim sendo, a figura do padre jesuíta Manoel de Leão está diretamente relacionada com as origens da atual cidade de São José dos Campos; inicialmente como administrador da Fazenda do Rio Cumprido, designado pelo Colégio da Vila de São Paulo e a seguir como responsável pela transferência do núcleo para o platô na orla do Banhado.
            Entretanto, outras correntes historiográficas, incluindo a historiografia oficial, atribuem ao também padre jesuíta José de Anchieta, a fundação de São José dos Campos, o que não foi comprovado até presente momento por nenhum pesquisador. A discussão em torno do nome de Anchieta teve inicio com Manoel Eufrásio de Azevedo Marques quando publicou “Apontamentos Históricos Geográficos da Província de São Paulo” no último quartel do século XIX. Segundo Marques, São José dos Campos foi um aldeamento, por volta de 1564, “de índios guaianases emigrados de Piratininga, sob a tutela do Padre José de Anchieta, mas (...) foi algum tempo depois abandonado pelos jesuítas, que obtiveram, pelos anos de 1643 a 1660, diversas data de terras”,  onde teriam fundado a aldeia, o qual daria origem à cidade. Seguindo a trilha de Azevedo Marques, o historiador do I.H.G.S.P. (Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo) Eugênio Egas também relaciona o Padre Anchieta com as origens de São José dos Campos, em obra publicada em 1925. A teoria da participação do “Apóstolo” do Brasil na fundação de São José ganhou força e consolidou-se com a versão “oficial” em 1977. Através de um concurso promovido pela Prefeitura Municipal, o jornalista Agê Junior, vencedor do mesmo, difundiu o nome de Anchieta como o verdadeiro fundador de São José dos Campos. Na obra ganhadora do referido concurso, Agê Junior afirma que “a Aldeia do Rio Comprido existiu e foi fundada pelo Padre José de Anchieta, renomados historiadores vêm afirmando há mais de 100 anos. E 100 anos de tradição, sem que aparecesse prova alguma ao contrário, devem ser respeitados”. O jornalista, porém, não revela quem são os “renomados historiadores”, afirmando somente, que a documentação que comprovaria o envolvimento de Anchieta na fundação da aldeia, foi destruída no ano de 1759, devido ao confisco dos bens e expulsão dos jesuítas do Brasil por ordem do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo. Por outro lado, os pesquisadores Shirley Gomes da Silva, Solange Vieira, Valeria Zanetti, Nara Rubia Martins e Diovane Ribeiro, ao citar a critica de Hélio Damante à tese em questão, afirmam que “não há elementos que comprovem a fundação da Aldeia de São José no século XVI, muito menos sobre a participação de José de Anchieta como seu fundador, tese que, a seu ver, seria fruto de um equívoco de Azevedo Marques”. Aliás, a própria documentação jesuítica não confirma José de Anchieta como o fundador da aldeia e sim Manoel de Leão, de acordo com a análise dos autores citados. Ainda, segundo os mesmos, apesar de estudos variados, textos e, até mesmo o brasão oficial atual apresentarem o padre José de Anchieta “como o fundador da cidade um conjunto de informação obtida a partir dos registros dos jesuítas, cartas, catálogos e biografias do acervo documental da historiografia jesuítica não confirmam essa versão. (...) Nesse panorama, os membros da Companhia de Jesus atribuíram ao jesuíta Manoel de Leão, administrador da fazenda de gado, a fundação da Aldeia de São José, valendo-lhe nos registros da Companhia de Jesus o título de patrono fundador” A única vez em que Anchieta esteve em terras valeparaibanas, e comprovada documentalmente, ocorreu em 1561 quando atuou como intérprete da expedição punitiva outra os índios do Vale do Paraíba. Chefiado por Jorge Moreira, tal expedição era uma represália aos ataques da Confederação dos Tamoios contra a Vila de São Paulo e o encontro entre as facções teria ocorrido no local onde atualmente, se localiza São José dos Campos. Daí o provável equívoco em torno do nome de Anchieta.
            Entrementes de acordo com a análise de Altino Bondesan, a Aldeia de São José, então pertencente a Vila de Jacareí, tem o primeiro batizado realizado em 8 de janeiro de 1747 pelo Padre Francisco de Paulo. Nesse período, a administração jesuítica punia com açoites em praça pública os índios que se ausentassem da aldeia sem a licença de seus superiores. Analisando no contexto da História Colonial, observamos que entre 1748 e 1765, a Coroa extinguiu a Capitania de São Paulo incorporando o seu território à do Rio de Janeiro, juntamente com vilas e aldeias. Com a invasão castelhana no sul, empreendida pelo General Dom Pedro de Cevallos, a rivalidade entre Portugal e Espanha foi transferida da Europa para os trópicos sul-americanos. Diante da ameaça, o governo luso, decide além de restabelecer a referida capitania, implantar uma política de militarização da colônia, obrigando os próprios colonos a se armarem contra o invasor espanhol. Com o restabelecimento, assume o governo da Capitania de São Paulo, Dom Luis Antônio de Souza Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, que logo implanta a política de militarização, à qual a sociedade colonial paulista reagiu fugindo ao alistamento militar obrigatório e à alta carga tributária. Segundo as professoras Vanessa Cristina Morais Oliveira, Maria Aparecida Papali e Valeria Zanetti, para resolver esses impasses “a Coroa portuguesa recrudesceu seu controle sobre a colônia, usando para isso as Câmaras Municipais das vilas, as quais eram utilizadas como um meio de contenção social, tendo em vista que os recrutamentos eram realizados nas vilas com o auxílio da Câmara Municipal”. Soma-se a isso o fato de que, na segunda metade de do século XVIII o aldeamento de São José do Parahyba, continha uma grande reserva de braços indígenas que a Coroa cobiçava para levar adiante os planos de defesa das fronteiras do sul colonial. Isso proporcionou para o surgimento do Diretório dos Índios, cujo objetivo primordial era o arregimento dos índios em seus próprios povoados. No caso da Aldeia de São José do Parahyba, as autoridades coloniais escolheram como administrador do diretório, o Capitão-Mor da Vila de Jacareí, José de Araújo Coimbra e para Capelão, o Padre Antonio Luiz Mendes. Dessa forma, seguindo as diretrizes da Coroa, diversos povoados e aldeias foram elevados à condição de vila, cujo objetivo principal era o de centralizar o poder por meio da implantação da Câmara Municipal, uma vez que somente as vilas possuíam tal órgão administrativo. E é assim que, para evitar a deserção dos autóctones, a antiga aldeia jesuítica é elevada à vila com o nome de Vila de São José do Parahyba, no dia 27 de julho de 1767. No mencionado dia assinaram o auto de ereção da nova Vila, segundo Altino Bondesan, além do diretor Coimbra e do Capelão Antonio Mendes, Leonardo José de Moura, Vigário de Jacareí; José Corrêa da Silva, João Payo Peixoto, entre outros. Após a instalação do pelourinho e da entoação do Te-Déum, teve início a escolha dos primeiros vereadores, sendo escolhidos Vicente de Carvalho, Veríssimo Corrêa e Luiz Batista. Os edis, no entanto, tiveram que assinar em cruz, pois não sabiam ler, nem escrever.   
            Todavia, mesmo cumprindo as determinações da Metrópole, a situação da nova Vila era precária, pois faltava de tudo, inclusive substitutos para juízes e demais oficiais da administração. Ao mesmo tempo, a Vila de Jacareí, protestou desde o inicio, contra a criação de Vila de São José do Parahyba, acusando a mesma de usurpar áreas territoriais próximas ao Rio Comprido, iniciando um antagonismo, causando emboscadas e assassinatos e atravessando os séculos. Para corroborar as afirmações dos edis de Jacareí, no ano de 1798, José Arouche de Toledo Rendon, protestava e criticava a elevação da Aldeia de São José á condição de Vila, pelo fato de não ter passado pelo estágio da Freguesia. A Vila, porém, seguia o seu ritmo e mesmo debilitada em alguns momentos, em outros a situação mostrava-se diferente, devido ao seu aspecto quando visitada pelos diversos viajantes que a visitaram. Cada um tinha o seu olhar critico, de acordo com suas convicções político–econômico–sociais e, até mesmo preconceituosas, se levarmos em conta de que a ampla maioria era de origem européia. Em 1817 passam pela Vila, vindos do Rio de Janeiro rumo a São Paulo, pela Estrada Geral, os viajantes alemães Spix e Martius, seguidos pelo austríaco Thomas Ender, que desenhou várias paisagens valeparaibanas, incluindo a primeira igreja matriz da Vila de São José do Parahyba. Em 1822, foi a vez do botânico francês Saint-Hilare, que ao passar pela Vila  afirma a mesma “ não passa de mísera aldeia composta de casas pequenas, baixas e mal mantidas. A igreja é pequena e só tem uma torre pouco elevada”.  No ano de 1854, Manoel Elpídio Pereira de Queiroz, em viagem ao Rio de Janeiro, vindo de Jundiaí, ao chegar a São José afirma que a igreja matriz de exterior possui uma aparência melhor que a de Jacareí, pois tem o campanário. Apesar de notar que as casas são todas antigas, o fazendeiro percebe que “o povo (é) mais vistoso”. Mesmo assim, comparando com outras vilas valepaibanas, a de São José do Parahyba ainda é “ordinária”. Em 1860 é a vez de o jornalista luso-brasileiro Augusto Emílio Zaluar passar por São José. Além de afirmar que a localidade permanece em notável atraso, o viajante critica os edifícios públicos e particulares, da igreja e as ruas mal alinhadas. Segundo o viajante a população da vila se aproxima em 8.000 almas e à exceção de pessoas ilustres, comerciantes e fazendeiros, “o resto da população é naturalmente indolente, preguiçosa e alheia a todos os regalos da civilização, sem se importar qual será a sua sorte no dia seguinte”. Ou seja, para Zaluar, a ampla parcela da população joseense, que não pertencia à elite, era composta de vagabundos e preguiçosos; ele, no entanto, faz uma descrição interessante do Banhado, hoje cartão-postal da cidade: “Uma das causas mais dignas de observar-se nesta localidade são os imensos brejos, o que dão aqui o nome de banhados, e que se estendem em grande distância, aos pés da montanha que está assentada a vila”. Aliás, em referência ao Banhado, já havia preocupação das autoridades da Vila, quando os habitantes iam ao local “buscar água no meio do mato do Banhado, infestado de cobras, de enormes jacarés e tantos outros bichos perigosos”. Isso já no final do século XVIII, quando a Vila ainda não dispunha de um açude, segundo a análise de Agê Junior.
            Aos poucos, porém, mesmo com passos largos, a Vila de São José progredia. De acordo com Azevedo Marques, a população do município entre 1869 e 1870 totaliza 13.800 almas, sendo 1.255 escravos. O café, como em todo o território valeparaibano, era hegemônico na economia, tendo ao lado o cultivo de algodão e cereais. Os impostos arrecadados somavam 4:209$300, a nível Municipal; 2:009$137, Provincial e 12:436$854, Geral. Mesmo não ostentando os soberbos casarões rurais e palacetes urbanos, como de Bananal, por exemplo, a Vila de São José do Parahyba possui algumas fazendas cafeeiras dignas de menção, como a Fazenda Montes Claros, a Fazenda Cachoeira, localizada no Bairro do Varadouro; a Fazenda Santo Agostinho, e a Fazenda Ibirarema, no Bairro de Vargem Grande, etc. A chegada da locomotiva no inicio de 1877 causou grande expectativa na população da Vila, que previa um grande salto no progresso do local, agora com o nome de Vila de São José dos Campos, decorrente de Lei Provincial de 2 de Abril de 1871. Em meio ás enormes festividades organizadas pela Câmara Municipal, a população contemplou a inauguração da estação ferroviária com a viagem inaugural do trem vindo de Jacareí. Até 1925, trilhos e estação localizavam-se na parte alta da cidade, quando são transferidas para uma planície próxima ao Banhado. No mesmo ano da chagada da estrada de ferro à São José dos Campos, surge também o primeiro jornal intitulado “Jovem América”, de propriedade de A. Sodré segundo Agê Júnior e, mais tarde de Manoel Augusto Galvão. Outros surgiriam como “O Parangaba”, de Euclides Miragaia, em 1882; Yetim” de Antonio Anjos Gaia; “O Flautim” de Manoel Moreira da Rocha, em 1886; “O Progressivo”, de José Oliveira Neves e Manoel Câmara, em 1897; “O Município” de Paulino Cortez, em 1898; “A Cidade”, de José Monteiro Júnior, em 1900,etc.
            Concomitantemente, entre o último quartel do século XIX e as três primeiras décadas do século XX, São José dos Campos, apesar de ser cidade pequena e interiorana, ficou conhecida pelos ares puros e saudáveis, consideradas excelentes para a cura de tuberculosos. Conhecida como fase Sanatorial, a cidade passou a receber doentes de várias partes do país, que desembarcavam na Estação Ferroviária dia após dia, à procura de cuidados médicos. Muitos, porém eram doentes sem recursos e geralmente abandonados pelos próprios familiares. Mesmo havendo outra cidade propicia à cura da tísica, como Campos do Jordão, os doentes eram encaminhados para São José dos Campos. Os enfermos ao chegarem eram alojados em pensões, hotéis e até em casas particulares, ocorrendo em muitos casos, de falecerem no dia da chegada. Muitos doentes, no entanto, vinham acompanhados de familiares sadios, que terminaram por se radicarem na cidade e, ao lado de outros que encontraram a cura acabaram formando parte da população contemporânea de São José dos Campos. De acordo com a análise de Douglas Carlyle Belculfiné, “o primeiro médico a fixar residência na cidade, em 1876, foi o Italiano Giovanni Guglielmino, nome popularizado para João Guilhermino. (...). Somente a partir da primeira década do século XX é que chegaram ao município, procurando tratamento, os médicos Mario Nunes Galvão, Gaspar Barbosa de Rezende e Nelson Silveira D’Àvila. Estes profissionais obtiveram cura e, exercendo suas profissões no local, passaram a fazer parte sua história”. Em 1924 é inaugurado o Sanatório Vicentina Aranha, um dos muitos que existiram em São José dos Campos no combate à tuberculose. Por outro lado, dividida em 1932 em zonas: Sanatorial, Comercial, Residencial e Industrial, a cidade foi transformada em Estância Climática, em 1935, sendo administrada pelos Prefeitos Sanitaristas indicados pelo Governo do Estado. Tal fato proporcionou numa ampla melhoria no abastecimento de água, tratamento e construções de novas redes de esgoto, urbanização, etc. refletindo o combate à doença pulmonar.
            Nesse ínterim, a fase industrial que começara tímida no alvorecer do século XX, ganhou impulso após 1940 com a instalação da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda, acelerando o desenvolvimento industrial valeparaibano. Porém, segundo Belculfiné, “o grande impulso foi mesmo a criação do Centro Técnico de Aeronáutica (CTA) e Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)”. Com a inauguração da Rodovia Presidente Dutra em 1951, diversas indústrias instalaram-se em São José dos Campos, tanto do setor automotivo, como químico e aeronáutico até o final da década de 1960. Nesse período, e fase Sanatorial agonizava, devido às novas formas eficazes no combate e eliminação da tísica. Atualmente, conhecida como Capital do Vale do Paraíba, a cidade de São José dos Campos, sede da nova Região Metropolitana, é conhecida devido ao pólo tecnológico-industrial que possui. Ao mesmo tempo, embora em pequena escala, tenta conciliar a modernidade com o seu passado histórico. Poucas são as construções preservadas, dentre as quais a Biblioteca Pública Cassiano Ricardo, antigo Teatro e Prefeitura, a antiga sede da Câmara Municipal; o Mercado Novo; a Capela Nossa Senhora Aparecida, que fora propriedade do Coronel João Cursino, a capela São Miguel, do segundo cemitério da cidade, a igreja São Benedito construída em Taipa em 1876, agora em fase final de restauração, etc. Como testemunha do período Sanatorial restou o “Vicentina Aranha”, que por pouco não foi demolido, graças a movimentação e agitação da sociedade joseense. Lamentavelmente nada restou da antiga fazenda de gado jesuítica do Rio Comprido. Até a próxima.
                                                                                           Eddy Carlos.                                
                                

Dicas para consultas.
BELLOTTO, Heloísa Liberalli. Autoridade e Conflito no Brasil Colonial: Governo do Morgado de Mateus. Coleção Texto e Documentos. Imprensa Oficial. São Paulo, 1979.
BONDESAN, Altino. São José em Quatro Tempos. Bentivegna Editora. São Paulo, 1967.
JÚNIOR, Agê. São José dos Campos e sua História. São Paulo, 1978.
MARQUES, Manuel Eufrásio de Azevedo. Apontamentos Históricos e Geográficos da Província de São Paulo. Biblioteca Histórica Paulista Volume I. Livraria Martins Editora. São Paulo, 1976.
PAPALI Maria Aparecida. (Org.). São José dos Campos: de Aldeia a Cidade. Coleção São José dos Campos. História e Cidade. Volume III. UNIVAP. São José dos Campos, 2010.
SOUSA e SOARES, Ana Maria Santos e Luiz Laerte. Modernidade e Urbanismo Sanitário. São José dos Campos. Fundação Cultural Cassiano Ricardo. São José dos Campos, 2002.
ZALUAR, Augusto Emílio. Peregrinação pela Província de São Paulo (1860–1861). Biblioteca Histórica Paulista. Volume II. Livraria Martins Editora. São Paulo, 1976. São Paulo, 1976.

E-mail: eddycarlos6@gmail.com

Blog: redescobrindoovale.blogspot.com.br

  

2 comentários:

  1. Fantástica viagem ao passado.
    Hoje em dia, ainda que em tom de brincadeira, diz-se que Jacarei é um bairro de São José dos Campos, porém, lendo os relatos aqui, dá a entender que São José foi alçada à condição de Vila e tomou posse de algumas áreas que pertenciam a Jacareí. Ou seja, São José cresceu na sombra de Jacareí.

    ResponderExcluir
  2. Muito importante, e interessante a sua publicação professor Eddy Carlos. Obrigado e parabéns!

    ResponderExcluir